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Fuga pela Fronteira

Flávio Bolsonaro chega aos EUA após cruzar a fronteira por Foz

Senador viajou com a família em jatinho que partiu de Puerto Iguazú, fez escala no Equador e pousou em Miami

28/10/2026 15h23Atualizado há 1 hora
Por: Reciel Rocha
Fonte: Da redação com agências
Flávio Bolsonaro desembarcou com a mulher e as duas filhas no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami, na quarta-feira (28).  Foto: divulgação
Flávio Bolsonaro desembarcou com a mulher e as duas filhas no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami, na quarta-feira (28).  Foto: divulgação

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a mulher e as duas filhas chegaram aos Estados Unidos na manhã de quarta-feira (28), após uma viagem que começou na Argentina e incluiu uma escala no Equador. A família embarcou em um jatinho particular em Puerto Iguazú, cidade argentina ligada a Foz do Iguaçu pela Ponte Internacional Tancredo Neves, e desembarcou no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami, na Flórida.

A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal (PF) e proibir sua saída do Brasil. Flávio não apresentou os documentos estrangeiros no prazo estabelecido pela decisão. A PF informou que cancelou os passaportes brasileiros comum e diplomático do parlamentar e incluiu um alerta migratório no sistema de controle de fronteiras.

A corporação investiga as circunstâncias da saída do senador, que não tem registro oficial de passagem pelos postos brasileiros de controle migratório. Uma das linhas de apuração busca esclarecer se ele chegou à Argentina por via terrestre, atravessando a fronteira de Foz do Iguaçu, ou se utilizou anteriormente uma aeronave particular para viajar de Brasília aos arredores de Buenos Aires.

 

PF investiga possível rota aérea

A suspeita de que Flávio tenha utilizado outro avião antes de embarcar para os Estados Unidos foi divulgada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, e confirmada pelo g1. A aeronave, um Cessna 560XL Citation Excel de prefixo PR-AAA, pertence ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador e também investigado em inquérito sobre suposta lavagem de dinheiro.

Segundo as informações divulgadas, o jato decolou de Brasília por volta das 5h de terça-feira (27) e pousou em San Fernando, nos arredores de Buenos Aires, às 8h40. Os investigadores apuram se o avião foi utilizado por Flávio e tentam esclarecer como teria ocorrido o deslocamento entre a região da capital argentina e Puerto Iguazú, distante mais de 1.200 quilômetros.

A hipótese considera que o senador poderia ter viajado de Brasília a Buenos Aires e seguido posteriormente para a fronteira com o Paraguai e o Brasil, onde embarcaria em outra aeronave. Até o momento, essa possibilidade é objeto de investigação e não foi apresentada como conclusão da Polícia Federal.

A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio e os familiares entraram no país por via terrestre às 22h50 de terça-feira. Menos de uma hora depois, às 23h30, a família embarcou no jatinho Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela empresa Baires Fly S.A.

O avião seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de continuar até Miami. O trajeto não cruzou o espaço aéreo brasileiro, passando por Paraguai, Bolívia e Peru.

 

Passaporte italiano foi usado no embarque

De acordo com documento obtido pelo g1 por meio do jornalista argentino Pablo Duggan, do canal C5N, Flávio utilizou um passaporte italiano para embarcar na Argentina. A mulher do senador, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, apresentou passaporte brasileiro, e as duas filhas menores de idade também constavam na relação de passageiros.

O documento indica que o voo transportava ainda três tripulantes argentinos. O senador possui cidadania italiana desde 2023. A determinação de Moraes, segundo as informações divulgadas, previa a entrega dos passaportes brasileiros e de eventuais documentos de outras nacionalidades.

O governo argentino afirmou que os integrantes da família apresentaram documentos válidos para entrar no país e não tinham impedimentos migratórios para a travessia. A confirmação da entrada na Argentina, contudo, não esclarece como ocorreu a saída do território brasileiro nem afasta a investigação sobre o eventual descumprimento da decisão judicial.

A Ponte Internacional Tancredo Neves é a principal ligação rodoviária entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú. A passagem é utilizada diariamente por moradores, turistas e trabalhadores dos dois países. Segundo apuração do g1, os controles brasileiros não resultam na abordagem de todos os veículos e brasileiros que atravessam a fronteira, circunstância que pode explicar a ausência de registro formal da saída do senador.

 

PF afirma que não tinha autorização para prender senador

Em nota divulgada na quarta-feira, a Polícia Federal afirmou que a decisão judicial sobre os passaportes e a proibição de deixar o país não autorizava a prisão, a vigilância permanente ou a adoção de outras medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro.

"A existência de restrições relacionadas a documentos de viagem, por si só, não caracteriza a condição de foragido nem autoriza a realização de prisão, vigilância permanente ou outras medidas cautelares", diz o comunicado da PF.

A corporação informou que acionou o STF no domingo (25), dia do segundo turno da eleição presidencial, após identificar risco de saída do senador do território nacional. Entre as medidas solicitadas estavam a apreensão dos passaportes, a proibição de deixar o país e a restrição de contato com outros investigados. Segundo a PF, a prisão do parlamentar não foi pedida.

Flávio foi formalmente intimado na manhã de segunda-feira (26) a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades em até 24 horas. O prazo terminou sem a apresentação dos documentos. A PF afirmou que investiga as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais.

 

Viagem provoca reações nos EUA e no Brasil

A chegada do senador aos Estados Unidos também provocou repercussão política. Na terça-feira (27), o Departamento de Estado americano informou que concederia vistos a Flávio e aos familiares, sem especificar a categoria dos documentos. Na quarta, o presidente Donald Trump declarou apoiar a ida do brasileiro ao país e voltou a criticar a eleição presidencial brasileira.

"Bem, eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível. Ela tem recebido avaliações ruins. Veja o que aconteceu com o mercado deles", afirmou Trump.

Integrantes do Partido Democrata criticaram a possibilidade de acolhimento do senador nos Estados Unidos. O Comitê de Relações Exteriores da Câmara americana questionou o tratamento concedido à família e comparou a decisão às restrições migratórias impostas a pessoas que fogem de conflitos no Sudão e no Haiti.

O deputado democrata Joaquin Castro também contestou a possibilidade de Flávio obter asilo. “Perder uma eleição não é motivo para pedir asilo”, escreveu nas redes sociais. O candidato democrata Isaiah Martin, por sua vez, criticou a possibilidade de acolhimento do senador e fez acusações contra ele em publicação na plataforma Threads.

No Brasil, ministros do governo Lula e integrantes do STF criticaram reservadamente a decisão de Moraes de determinar a entrega dos passaportes. Segundo relatos publicados pelo g1, um ministro do Supremo afirmou que não teria adotado a mesma medida, enquanto um integrante do governo federal classificou a decisão como um erro político por ter sido tomada logo após a eleição.

As avaliações relatadas foram feitas sob reserva e não representam, necessariamente, uma posição institucional dos órgãos envolvidos. Os críticos consideraram que a medida poderia favorecer a construção de um discurso de perseguição política por parte do senador.

Flávio Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de domingo (25). Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% do senador.

A investigação da PF deverá esclarecer como Flávio chegou à Argentina, quais documentos foram utilizados em cada etapa da viagem e em que circunstâncias ocorreu a saída do Brasil, diante da ordem judicial em vigor.

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