A Prefeitura de Foz do Iguaçu chegou a desembolsar quase R$ 90 mil por mês em contas de energia elétrica de imóveis particulares, locais utilizados por terceiros e unidades que já não eram usadas pela administração municipal. O valor representa uma despesa anualizada de aproximadamente R$ 1,08 milhão.
A descoberta ocorreu após um levantamento realizado pela administração para identificar unidades consumidoras vinculadas ao município. O trabalho combinou cruzamento de dados, uso de ferramenta de Inteligência Artificial e inspeções presenciais para verificar a situação dos locais.
Segundo a Prefeitura, os pontos considerados irregulares foram desligados. Entre outubro de 2025 e agosto de 2026, os cortes já resultaram em uma economia de R$ 135 mil, conforme dados da administração. Mantido o ritmo identificado no levantamento, a economia projetada chega a R$ 1,08 milhão por ano.
O dado mais relevante, porém, não é quanto a Prefeitura pretende economizar daqui para frente, mas quanto dinheiro público foi utilizado antes da descoberta para pagar despesas que, segundo a própria administração, não deveriam estar sendo bancadas pelo município.
O levantamento identificou três situações principais: imóveis particulares com contas pagas pela Prefeitura, locais públicos utilizados por terceiros e unidades que deixaram de ser utilizadas pela administração, mas continuaram gerando despesas de energia.
Segundo o diretor de Iluminação Pública, Pedro Rodrigues, os casos foram inicialmente identificados pelo cruzamento das informações e posteriormente confirmados pelas equipes em campo.
“São unidades consumidoras que estavam em locais particulares, em uso por terceiros ou que estavam sem uso da própria Prefeitura. A partir do levantamento, realizamos as inspeções para confirmar a situação e, nos casos identificados como irregulares, providenciamos o desligamento”, explica.
A administração também passou a utilizar tecnologia para ampliar a fiscalização das unidades consumidoras.
“Estamos cruzando os dados com o objetivo de deixar o trabalho mais eficiente e mais apurados. Desta forma, conseguimos identificar as unidades com maior precisão e, consequentemente, gerar economia para o município”, afirma o diretor.
Quanto já foi pago?
A economia anunciada pela Prefeitura responde apenas ao que deixará de ser gasto depois dos desligamentos. O levantamento abre outra frente de questionamentos: por quanto tempo essas contas permaneceram sendo pagas pelo município e qual foi o valor total desembolsado em cada caso?
Também é necessário esclarecer quem utilizava os imóveis particulares ou os espaços públicos que tiveram suas contas de energia pagas pela Prefeitura e qual era a justificativa administrativa para a manutenção dessas despesas.
Se havia imóveis particulares com energia custeada pelo município, é preciso identificar a origem da vinculação das contas, o período dos pagamentos e os responsáveis pela autorização ou manutenção das despesas.
Nos locais públicos utilizados por terceiros, também cabe esclarecer se havia autorização formal, qual era a finalidade da ocupação e se existia alguma previsão para que o usuário arcasse com os custos de consumo.
A economia de R$ 90 mil mensais mostra que o problema não era residual. Era uma despesa recorrente, paga com dinheiro público, que alcançava aproximadamente R$ 1,08 milhão em um ano.
A conta não termina no corte
O desligamento das unidades resolve a despesa futura, mas não encerra a necessidade de fiscalização sobre o dinheiro que já saiu dos cofres municipais.
A Prefeitura deveria apresentar a relação das unidades identificadas, os valores pagos, o período de cada despesa e a situação de cada imóvel. Com essas informações, será possível dimensionar o prejuízo aos cofres públicos e verificar se houve pagamentos que deveriam ter sido assumidos por particulares ou terceiros.
A Câmara Municipal também pode cobrar os dados e acompanhar os casos individualmente. Se houver indícios de pagamentos sem finalidade pública ou de despesas assumidas indevidamente pelo município, os fatos podem ser encaminhados aos órgãos de controle para análise e eventual responsabilização, sempre assegurados o contraditório e o direito de defesa.
O caso também mostra que o mesmo tipo de fiscalização pode ser aplicado a outras despesas recorrentes. Água, telefonia, aluguéis, manutenção, veículos, contratos e serviços terceirizados podem ser submetidos ao cruzamento de dados para identificar pagamentos que continuam ativos apesar de a finalidade pública ter deixado de existir.
A pergunta agora é simples: se uma varredura encontrou R$ 90 mil mensais em contas de energia que não deveriam estar sendo pagas pela Prefeitura, quanto dinheiro público ainda pode estar saindo por despesas que ninguém conferiu?
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