No Bico do Corvo
O "destino" como entendê-lo

Houve muita dor e um profundo sentimento de pesar na despedida de Sílvia Helena Marchioratto. Tenho aliás, acompanhado o sofrimento da família, porque considero muito injusta e desvantajosa a luta contra o câncer e todas as ocorrências que ele causa, no curso de um tratamento. Conheci Silvia no esplendor da vida, tão logo ela se uniu ao Luiz Francisco, e, eles transferiam aquele senso de contemplação mútua, da união que impressiona e nos faz bem. Lembro da chegada de Ana Luiza e depois, das peripécias da ruivinha correndo pela casa, se atirando no colo dos pais. E, a casa de Sílvia, é a lembrança de um templo, tão bem cuidada e colorida de flores em seu extenso jardim. Elas, as flores, a casa, os tijolos, as molduras dos quadros, cada cantinho está chorando, indubitavelmente.

 

Penso com carinho no meu amigo Luiz Francisco – não há outro modo de pensá-lo – e, quando ouço dizerem “a ficha ainda não caiu”, vem aquele amargor, de saber, que apesar da expressão simplista, a ficha nunca vai cair; diante de tanta espiritualidade, isso nunca vai acontecer. Uns dizem que não é bom, outros acreditam que isso se torna a parcela de vida eterna, o ato de sempre ser lembrado e a sensação de ser estar por perto.

 

Mas em meio a isso, nesse exercício de entender a vida e decifrar os valores por ela impostos; ao buscar compreensão nessa essência, às vezes tão próxima e que muito nos ensina, Luiz Francisco precisou lidar com outra situação, a perda da mãe, dona Maria de Lourdes Barleta Marchioratto, aos 97 anos, pessoa extraordinária, reconhecida inclusive pela sociedade iguaçuense, ao se tornar estampa de uma série de selos dos Correios, onde trabalhou por décadas.   

 

Então vamos pensar e tentar mensurar, como é perder a companheira num dia, e a mãe em outro, poucas horas depois? Certamente é muito difícil e complicado, porque, embora se encaixe na ordem natural da vida e nem de todas as coisas, não é normal. É muito! Como, de que maneira, alguém pode lidar com uma situação assim?

 

Tenho a plena certeza, que Luiz Francisco Barleta Marchiorato saberá lidar com um evento assim, porque é uma pessoa preparada; munido de valores e conhecimentos, que lhe oferecerão estrutura em momento tão triste e por dizer, inolvidável. Mas eu jamais deixaria de expressar publicamente o meu sentimento de apoio, porque além de me ser dada esta oportunidade, por ofício, jamais abandonaria um amigo em jornada assim, sem o espaço para outro sentimento que não seja dor. Surgem dúvidas se devemos ou não publicar textos assim, mas ao imaginar que outras pessoas se somarão na tarefa de conforto, o fazemos sem titubear. Muita força, querido amigo Marchioratto, espero que encontre conforto em sua grande alma.

Rogério Romano Bonato