No Bico do Corvo
Chuvas em Minas

Pois veja, Corvo, o comparativo é necessário: o novo coronavírus matou cerca de cem pessoas em dois meses, e as chuvas ceifaram a metade desse número em apenas cinco dias em Minas Gerais. Estradas e a falta de soluções urbanas ainda são mais perigosas que as doenças; quem vive na insalubridade está mais suscetível a infecções por meio de insetos e até mesmo pelo ar, porque a imunidade é baixa. Às vezes creio nas escrituras, nas pragas anunciadas.
Josiane A Silva

O Corvo responde: uma coisa é diferente da outra. Novas formas de endemias e a mutação das bactérias e vírus requerem maior atenção e prontidão da ciência e investimentos nela; condições de vida dos cidadãos, dependem das ações governamentais. Faz tempo que o Brasil discute a precariedade das construções em áreas de risco, mas o tempo passa, e as pessoas não encontram outra saída. Nas reportagens sobre os desabamento, depois de perder a esposa e três filhos, a fala de um pai chocou o país: "Eu sabia que o lugar não era bom, mas eu não tive outra alternativa, pela falta de recursos financeiros". Ele escapou da morte porque estava trabalhando. No mais, ter fé e crer nas escrituras não está errado, porque elas nos induzem a cuidados com a saúde e o meio em que vivemos.  

Trabalho escravo
Prezado colunista, se por um lado ficamos maravilhados com as modernidades tecnológicas na internet, estradas sem motoristas, gente indo para Marte..., por outro desmoronamos com notícias sobre trabalho escravo, como o caso das paraguaias exploradas sexualmente na Espanha e pessoas que precisaram ser resgatadas da dureza no campo. Que situação, hein? Mas não vamos longe, é do conhecimento de muitas pessoas que jovens paraguaias atravessam a fronteira "encomendadas" para trabalhar em casas de grã-finos. E elas crescem nesses locais sem ir para a escola e, no máximo, a diversão é um televisor no quartinho. Passam a vida assim, você sabia, Corvo? Isso chega a ser um hábito cultural no país vizinho, de pobres servirem os ricos dessa maneira. 
LGH (A leitora pediu para não ter o nome revelado.)
 
O Corvo responde: é verdade. Em várias ocasiões recebemos informações assim e, segundo pesquisamos, é uma maneira das famílias em dificuldades arranjarem um "futuro" para os filhos. No entanto, há casos em que essas crianças foram tratadas com dignidade, adotadas informalmente e prosperaram, frequentando escola e completando curso superior. Mas aos olhos da lei isso está errado. Há quem se aproveite da fraqueza alheia para explorar, mas também existem os que possuem compaixão e ajudam os mais necessitados. Mas o que acontece no campo e na "exportação" de mulheres, isso é uma barbaridade, sobretudo num mundo tão conectado. 

Retroação 
Há muitas outras razões para nos sentirmos no passado, e isso acontece quando presenciamos debates sobre "terraplanismo" ou a difusão do pensamento de que o planeta não possui a forma arredondada. Outra discussão em voga é a manifestação do professor Benedito Guimarães Aguiar Neto, ex-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), pois ele quer "colocar um contraponto à Teoria da Evolução". O homem acredita no "criacionismo"! Pior, ouvimos essas asneiras da boca de agentes governamentais, pessoas escolhidas para nos representar em escalões importantes. Para essa gente, o Universo é uma prateleira e Darwin é um mentiroso, porque não houve evolução das espécies, tudo surgiu do Paraíso; conforme escreveu Mencken, os dinossauros foram extintos porque não couberam na arca de Noé. Até o Vaticano reconhece a evolução! É muito ruim ver a ciência tratada dessa maneira. 

Esquentando
O presidente norte-americano Donald Trump procura factoides para se segurar no poder, ou pelo menos afastar a tentativa de impeachment. Ele surgiu com uma solução milagrosa para o Oriente Médio, reconhecendo a Palestina, mas o projeto, em si, não agradou nem aos palestinos nem a muitos israelenses. Primeiro, porque a empreitada envolve o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que está pela bola 8 depois de ser indiciado por corrupção, e em segundo lugar pelo tom desesperador da proposta, como Trump tentasse desviar a atenção do circo pegando fogo à sua volta. Foi, aparentemente, um tiro no pé. Até apoiadores do presidente se irritaram. 

Comparação
Americanistas, diplomatas e autoridades que analisam o comportamento de Donald Trump estão esboçando, mais do que nunca, um perfil desastroso do presidente, e isso surge em tom de campanha frente ao impeachment. "Trump é um pouco pior que Bolsonaro", disse a economista Deirdre McCloskey. A professora da Universidade de Illinois teve a palestra cancelada pela Petrobras. Mas se não é de hoje que a acadêmica vem descendo a lenha no presidente brasileiro, como é que foi chamada para palestrar na maior estatal brasileira?  

Bolsonaro ponderado
De fato, algo aconteceu com o presidente. Ele está mais calmo, mede as palavras e age sem criar tempestade, tentando equilibrar-se com o pensamento brasileiro. Uma demonstração foi a demissão do secretário-executivo da Casa Civil, que usou um avião da FAB para encontrar a comitiva presidencial na Índia. As fontes em Brasília dizem que saiu da presidência o puxão de orelha no ministro da Educação e, também, foi de lá a iniciativa de pressionar a demissão do presidente do INSS, Renato Vieira. 

Coronavírus
Corvo, você tinha razão. E pensar que algumas pessoas o estavam acusando de ser exagerado. O vírus está no Paraná e em mais dois estados brasileiros. Decerto há mais pessoas infectadas, e vamos rezar para isso não se tornar uma epidemia. Já temos problemas além da conta com a dengue e outras endemias. Será que há cura, Corvo? O que você sabe? 
Leonor R Peixoto

O Corvo responde: os sintomas são muito parecidos com os da gripe: dor de garganta, febre, coriza, dificuldade de respiração e tosse. O vírus foi detectado nos anos 60 e vem sofrendo mutações, tanto que está sendo tratado como o "novo corona". O nome advém da forma das bactérias, arredondadas, cheias de saliências em forma de coroa. Ainda não há vacina e cada caso varia de acordo com o paciente, segundo revela a OMS. Como em outros países, o Brasil começou a pesquisar formas de imunizar a doença; e, claro, os casos constatados servirão como base laboratorial, portanto os infectados deverão permanecer mais tempo em incubação. O que chama a atenção é a agressividade e rapidez na contaminação. 

Disseminação
Algumas pessoas foram infectadas sem viajar para China, o que está intrigando muitos cientistas. Mas vamos imaginar que uma bactéria tão poderosa, dentro do ambiente de um avião, por exemplo, tem o efeito de se espalhar no ar, assim que as portas são abertas. E, se nem todos são afetados durante o voo, isso reforça a tese da imunidade. A ciência avança rápido, e tomara que encontrem logo uma vacina.  

Redescoberta
Prezado colunista, se me permite, gostaria de fazer um comentário sobre a nossa música. O que acontece com a criatividade nos dias de hoje? Pergunto porque as novelas exibem temas antigos, composições de nomes célebres como Cartola e agora o Gonzaguinha. E mesmo assistindo ao The Voice Kids, vemos crianças cantando clássicos de Guilherme Arantes, Luiz Gonzaga e Raul Seixas. Por que será que os compositores não se esforçam um pouco mais para nos oferecer peças musicais de mais qualidade? 
Marcos L Medeiros

O Corvo responde: como diz um amigo, "estamos condenados a viver de saudade" do tempo em que as melodias eram mais sofisticadas e as letras eram cuidadosas com o nosso idioma. No entanto há compositores de muita qualidade, acontece que a difusão é que mudou e faz sucesso o que bomba nas redes sociais. Músicos ecléticos não encontram muito espaço, e a MPB (Música Popular Brasileira) sofre com a invasão de novas formas de comunicação por meio de letras e ritmos. Até o samba não é o mesmo. Acontece que antigamente havia o crivo das gravadoras, nas quais as pessoas que selecionavam artistas eram muito criteriosas; acreditavam no potencial de sucesso com outra visão, por isso existiram fenômenos como Gonzaguinha e Raul Seixas. Mas isso muda com o passar do tempo. Quem gosta da boa música pesquisa e encontra talentos que satisfaçam. Veja, as mudanças de comportamento não ocorrem apenas na música, pois literatura, cinema, artes plásticas..., tudo está mudando. 

Piada
Corvo, como você consegue encontrar humor em fatos tão terríveis como o vírus chinês? Não acha que isso pode ofender algumas pessoas? Vivemos sob um sinal vermelho, com a possibilidade de uma infestação mundial. Não vejo graça nisso. Não o estou criticando, mas expondo o meu ponto de vista.
Fabiana J Hernandes

O Corvo responde: a graça que há na vida é a de poder estender o olhar sobre as catástrofes, crendo que tudo será solucionado. O nome disso é fé. Este colunista jamais brincou com a situação que envolve o novo coronavírus, apenas fez a crítica no ponto certo, quando as autoridades chinesas reconheceram que falharam. Uma charge não significa propriamente humor. Pode ser protesto e, em muitas vezes, contundente. Há ocasiões em que charges e fotografias falam mais do que os conteúdos de matérias.  

Som alto
Corvo, uma noite dessas caí numa blitz. Fui cordialmente abordado pelos policiais e guardas municipais. Fiquei estacionado algo mais que cinco minutos enquanto averiguaram tudo o que julgaram necessário. Me borrei todo, porque havia bebido umas cervejas, mas não fizeram o teste do bafômetro, certamente porque a minha família estava no carro. Mas o que me chamou a atenção foi um ou dois veículos passarem pela blitz, não sendo parados, com o som nas alturas! Não seria o caso de pararem esses indivíduos e aplicarem uma multa neles?
PRJ (O leitor pediu para não ser identificado.)

O Corvo responde: certas coisas são hilárias: o leitor reconhece uma irresponsabilidade ao beber e depois dirigir; pior, conduzindo a família, no entanto quer que os policiais autuem outros. Certamente, o pelotão estava envolvido com a tarefa de revistar os veículos. É possível que alguém tenha anotado a placa do veículo com o som acima dos decibéis permitidos. Segundo este colunista apurou, as viaturas estão dando em cima das infrações de perturbação do sossego. Muitos veículos estão sendo abordados em razão disso.