Coluna do Corvo
Desperdício
Creio que esta coluna será uma das mais chatas que escrevi, mas não vejo alternativa, frente aos tristes acontecimentos e seus desdobramentos, muitos dos quais poderiam ser evitados. Não custa nada às vezes exercitar o pensamento. Pergunta: o que é pior, a areia movediça da vida pessoal, ou o agreste castigado pelas consequências públicas, cercado de aves agourentas, sedentas de sangue e carniça? Lhes asseguro, caros leitores: a vida pessoal, quando deixa a zona de conforto, perante a opinião pública, é pior para a imagem de alguém, que o envolvimento com corrupção, desleixo, inatividade e incompetência. Um homem público rotulado por esses substantivos e, o último, um adjetivo, é em geral substituído e esquecem dele no tecido político, porque a memória é assim curta e rasa, mas quando, se envolve em caso familiar estridente ou situação pessoal lamentável, dependendo a maldade da narrativa, isso é navalha na carne. Haverá uma cicatriz para o resto da vida.
Sem rodeios
O nome de Sérgio Caimi esteve entre os mais mencionados nos últimos dias, devido à repercussão de um episódio de sua vida pessoal. A discussão em torno do caso chamou atenção e gerou comentários em diferentes esferas, inclusive nas redes sociais. Como acontece em situações similares, a maneira como os envolvidos reagem pode influenciar a percepção pública. A experiência mostra que, em certos momentos, o silêncio e a busca pelos meios institucionais adequados são estratégias que ajudam a preservar a privacidade e a conduzir qualquer questão com a devida discrição.
Quem é o Sérgio Caimi?
É um baita cara, ilibado, sério, homem de família, conciliador, conselheiro de muitos, servidor público exemplar, político, conhecedor como poucos do setor de meio-ambiente, um dos secretários mais ativos do atual governo e que foi conduzido à pasta, mesmo depois de ser adversário. É um devoto da fé, religioso e que entrega parte da vida à meditação. Ele é isso tudo e continuará sendo para os que o conhecem bem, mas francamente, não deveria ter gravado um vídeo em frente a uma delegacia de polícia, ao lado da companheira, com a intenção de minimizar uma ocorrência familiar e pior, respondendo a acusações em redes sociais.
Pecado e honra
E por que fez isso, será? É raro quem, em algum dia, não tenha cometido uma grosseria em casa, trocado farpas com o (a) cônjuge, pisado na bola, e, depois, perdido o sono, alfinetado pela consciência. No entanto, há casais que vivem assim, à base dos “tapas e beijos” e, em briga de marido e mulher ninguém quer meter a colher. Algumas relações são notórias, mas em geral, isso não compete a outros, até a situação deixar o terreno da “normalidade” e evoluir para a agressão. Aí, o assunto passa a ser uma questão de cunho legal e quando envolve pessoa pública, torna-se um incêndio difícil de apagar.
Sem juízo de valores
Sem permear o que realmente aconteceu, o Caimi se incomodou com as notícias, considerando-as injuriosas, ou seja, ao ver o sacrossanto recinto do seu ninho exposto e, no lugar de simplesmente procurar os canais competentes, e lá, se defender, enfiou os pés pelas mãos, causando ele mesmo o fogaréu. Deu um tiro no pé ao não saber se expressar e reparar a honra. Espalhou a carniça e atraiu urubus, carcarás e naturalmente, os corvos.
E como é isso?
Aqui ninguém vai ensinar como se safar de uma bola dividida dessas, mas o correto seria procurar os setores judiciais competentes, no caso o juizado de Violência Familiar, aclarar a situação, se responsabilizar e tratar do caso requerendo o “Segredo de Justiça”, até responder, porque isso norteia e ampara os envolvidos. Deveria optar pela instituição, mesmo sabendo que não há indulgência para certos comportamentos. Se agisse assim, dificilmente seria exposto, como foi, protegeria o que lhe resta de dignidade, porque a violação do rito é crime. Mas preferiu outro caminho, a caatinga, onde os carcarás sanguinolentos estão à espreita.
Quem é o Carcará?
São vários, em verdade vivemos sob uma revoada de aves de rapina, prontas para entrar em ação toda a vez que um caso de proporções similares acontece, sobretudo quando envolve figura política. Ou a maioria dos blogs não funcionam assim? Isso virou até personagem de novela; quem não lembra o Theo, no papel brilhantemente interpretado pelo Paulo Betti?
Uma coisa, outra coisa
Há quem utilize internet com finalidades desenvolvimentistas, mas existem os que se dedicam aos fatos com vertentes sustentadas no sensacionalismo; em geral esses endereços não são bem aceitos pela comunicação formal; quanto maior o número de visualizações, melhores são as chances de monetização e para se ter sucesso no ramo, é preciso movimentar redes sociais e interagir por meio delas. A manifestação do Caimi causou efeitos curiosos, matou a sede dos carnicentos e obrigou vários veículos cobrirem o caso, do contrário, passariam batidos. Por essas e outras, emissoras de rádio, como a Cultura, atenderam a informação. Quanto mais tempo passar, mais difícil serão as chances de encontrar um limão azedo, e fazer a limonada. Sergio preferiu não fazer.
Vamos lembrar
A vida não era muito tranquila para o jornalismo lá pelos tempos dos governos militares, quando havia a censura. Mas naquele período existiu um personagem notável, o general Golbery do Couto e Silva. Tratava-se de um homem moderno, com muita amplitude democrática e conhecimento na informação, tanto que mereceu apelidos como “o Bruxo”, “Mago da Abertura”; Elio Gaspari o considerava “O Feiticeiro” e ninguém menos que Glauber Rocha, o chamava como “O Gênio da Raça”. Por essas e outras, vale à pena se aprofundar em seu brilhantismo. Calma queridos leitores, já chegarei lá… preciso molhar um pouco mais o bico.
Admiração
Como, no meio da ditadura, celebridades como Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, Rubem Fonseca, João Cabral de Melo Neto, Raul Bopp, José Cândido de Carvalho, Josué Montello, Pedro Nava e outros, externavam a admiração à um milico, enviando suas publicações e com dedicatórias das mais carinhosas? Golbery recebeu quase 400 obras autografadas, sendo considerado um “notável brasileiro”, “eminente patrício”, “compadre”, “companheiro de estudos”, “ilustre brasileiro que muito admiro”, aquele “cujo pensamento vem sendo a inspiração do país”. Aqui entre nós, “os textos ilustram as teias que se formavam em torno do poder. Uma rede de interesses que pode soar constrangedora para quem preferiu manter sua imagem pública dissociada do regime, escreveu a revista Época”.
Diferencial
Então, se os militares de um regime, se diferenciam pela opinião e comportamento, porque isso não pode acontecer com os personagens dessas novas formas de comunicação? Pois bem, dentre as frases mais lembradas do Golbery há: “Não interrompa uma pessoa que lhe conta algo que você já sabe. Uma história nunca é contada duas vezes da mesma maneira e é sempre bom ter mais uma versão”. E a melhor de todas era mais ou menos assim: “uma notícia ruim dura dez dias, se você desmentir durará onze”. Dei essa volta toda para ilustrar que alguns ensinamentos não são assimilados como deveriam. Isso acontece porque a estrutura de pensamento é frágil e a memória também.
O pensamento de um blogueiro
Lá atrás, pelo início dos anos 2000, em conversa de bar, eis que surgiu o nome de Joseph Goebbels entre as rodadas de cerveja. “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, é um dos seus pensamentos mais conhecidos. O fato é que algumas pessoas o conheciam, outros não, e, senti um arzinho de valor no mencionado, então perguntei: “o que você pensa sobre Goebbels?”. “Foi um gênio”, disse um blogueiro. Pedi a conta e fui embora! Goebbels não era gênio coisa nenhuma, foi um crápula travestido de político, uma excrescência fardada; o pior dos subprodutos que se autodenominava “homem”; se considerava raça superior, um pulha, genocida e quadrilheiro nazista, um pervertido social sem alma e humanidade (É a minha opinião). Como vivemos em democracia, devemos ouvir e deduzir o coletivo. Francamente, como homem de comunicação, Goebbels não me ensinou absolutamente nada. Mas ele foi e é levado a sério, mesmo muito tempo depois de envenenar os seis filhos com cianeto, de tirar a própria vida e da mulher, aos 47 anos.
Goebbels no consciente
Esses dias perguntei a outro profissional da comunicação a razão de repetir sempre as mesmas ofensas sobre determinada pessoa e ele disse: “a bíblia da comunicação diz em um dos ‘versículos’, que é importante insistir no assunto, mesmo que seja duvidoso, para formar a opinião”. Que bíblia é essa! Blasfêmia! Barbaridade, por essas e outras não temo em desejar que Goebbels e outros infames da mesma laia continuem ardendo no quinto dos infernos! Mas não vamos generalizar. É preciso admitir, que muitos blogueiros realizam um trabalho bom e eficiente, e, que a comunicação residirá, um dia, nesse tipo de canal. Vai de quem acreditará ou não. A tendência, dizem, é a moralização da internet, preconizando a liberdade de expressão. O fato é que na medida que o humano evolui, a ignorância é erradicada.
Humanos e “inumanos”
Possivelmente o maior inimigo da raça humana esteja em relativas proporções, dentro de cada um de nós. Há em todos uma fração da bestialidade, inconformismo, revolta, indignação e, ignorância. Como diz o meu bom amigo Mohamad Barakat e não canso de repetir, “a ignorância é a arma dos ditadores”. Fico pensando nos esforços coletivos de salvar o Planeta e concluo que vencer a ignorância deveria vir antes de muitas coisas, porque ela gera a fome, as desigualdades, as deformações sociais, a falta de cuidados com o ambiente, dentre outros. A ignorância, é também, o combustível de quem se aproveita dos fatos e os distorce com a intenção de chamar a atenção e não vamos longe, é dotado de uma robusta ignorância, aquele que não sabe compreender essas maquinações e, diante do lamentável, não se comporta como deveria.
Para pensar
Nem tudo está perdido e cabe aqui finalizar esse meu longo pensamento, ainda nas palavras do Barakat. Veja, ele é filho de uma família muçulmana tradicional, celebrando o Ramadan, que se conclui no final deste mês. Neste mesmo período os cristãos estão celebrando a Quaresma que terminará juntamente com o Pessach, dos judeus, em 20 de abril. Interessante como fé é parelha? Vamos um dia discernir sobre isso. Mas na semana passada, o meu amigo disse algo muito reflexivo: “a ignorância só pode ser apagada pelo ensinamento e uma grande lição nos foi repassada por Jesus Cristo, que disse: “amai-vos uns aos outros, como amam a si próprios; ame os seus inimigos e divida o pão”. A menção não possui um fundamento religioso e sim, de que deve haver determinação em vencer as anomalias; o que não desejamos e para isso, precisamos nos esforçar e buscar em palavras assim, força e inspiração. Se Cristo buscou ensinou o perdão e o amor, pregado na cruz, porque resistimos tanto em aprender uma lição assim? Quero desejar uma excelente semana a todos.