“O novo coronavírus gerou uma ruptura no ritmo e estilo de vida da sociedade”


- Por: Redação 1

“O novo coronavírus gerou uma ruptura no ritmo e estilo de vida da sociedade”
O médico Roberto de Almeida  é professor de Medicina da UNILA e coordenador e responsável técnico da UTI adulto no Hospital Municipal de Foz 

O médico Roberto de Almeida é o convidado do oitavo episódio da websérie Fator Ciência, produzida pela UNILA, que tem a Covid-19 e seus reflexos como tema desta temporada. Professor de Medicina da UNILA, ele é coordenador e responsável técnico da UTI adulto no Hospital Municipal de Foz do Iguaçu. Atua, ainda, na promoção de saúde integrativa e na pesquisa da Medicina do Estilo de Vida, da Salutogênese e da Saúde Planetária. Este e outros episódios do Fator Ciência estão disponíveis no canal da UNILA no YouTube (youtube.com/user/younilatube) e também no Spotify (bit.ly/unilafc).

Os impactos da pandemia e do distanciamento social no cotidiano, nas relações humanas e na saúde foram alguns dos temas abordados pelo docente. “A gente percebe que o coronavírus, a Covid-19, criou uma ruptura bem marcante no ritmo do estilo de vida que a gente vinha [tendo] antes”, aponta Roberto de Almeida. Ele salienta que, para uma parte da população, o momento de “parada” na correria do dia a dia trouxe alguns benefícios, que se refletem em escolhas e hábitos mais saudáveis, a exemplo da higienização das mãos e de uma alimentação feita em casa. Por outro lado, aponta que a pandemia trouxe consequências prejudiciais à saúde mental e emocional, com o aumento de pessoas com ansiedade, estresse, angústia e preocupações. A saúde física também sofre os efeitos, com diminuição da atividade física e receio do contágio em ambientes coletivos, a exemplo de academias de ginástica.

Outro pilar da Medicina do Estilo de Vida, o relacionamento também é uma área afetada a partir de novas configurações que emergem a partir da pandemia. Almeida avalia que o isolamento das pessoas pode gerar oportunidade de um maior diálogo por um lado e, por outro, criar situações de conflito e dificuldades no relacionamento. “Nem todo mundo conhece os princípios da comunicação não violenta, não sabe expor seus sentimentos, suas necessidades, suas questões, e [isso] acaba gerando um pouco de estresse. E isso é algo que vai aparecer como resultado dessa vivência na pandemia também”, pontua. No convívio com o outro, o médico destaca a necessidade de equilíbrio e harmonia, que estão conectados à qualidade do convívio social. A importância e a valorização do contato afetivo também estão no centro da questão do relacionamento, neste momento em que se exige das pessoas um distanciamento físico de familiares e amigos.

Outra reflexão em tempos de pandemia, destacada pelo médico Roberto de Almeida, está na organização da nossa vida. “Uma das coisas que a gente precisa aprender na Medicina do Estilo de Vida, um dos pilares, o manejo do estresse, da correria, é a atitude de estar presente, com a meditação, com a questão de estar no aqui e agora, com foco”, avalia Almeida. Ele destaca, portanto, que a qualidade de vida está relacionada a essa ancoragem no momento presente e, também, a uma organização pessoal – sobretudo no momento em que mais pessoas têm trabalhado em casa. “De certa forma, a gente se organiza em função das coisas externas que a gente faz, dos compromissos, das agendas. No momento em que você está mais com você e suas coisas, isso exige mais autodisciplina e auto-organização”, avalia.

Tecnologia, infraestrutura e saúde planetária
Outro ponto destacado pelo docente está nos impactos do uso da tecnologia nos espaços da educação, do trabalho e da saúde. Ele cita o caso da telemedicina, recentemente aprovada nos âmbitos federal e estadual, para ser utilizada neste contexto de pandemia e distanciamento social. “Provavelmente, essa é uma coisa que vai ficar como uma prática organizada, com todos os cuidados, mas vai ser uma possibilidade a mais de atender as pessoas”, salienta.

O médico Roberto de Almeida também traz o debate das consequências da pandemia para a relação entre comportamento, estilo de vida do ser humano e a saúde do planeta. “Uma das coisas que ainda não são muito discutidas e valorizadas é o impacto do conjunto das atividades humanas, de 7,7 bilhões de seres humanos em conjunto fazendo sua alimentação, o seu transporte, suas atividades, seu consumo e uso das tecnologias, que vão impactando o ecossistema e a natureza”, destaca. Nesse contexto, ele cita o transporte como uma das temáticas que provocam reflexão, a partir de mudanças na forma de trabalho, como o home office, que dispensa o deslocamento das pessoas. “O local onde se constrói a moradia, o acesso, as vias públicas, as ciclovias têm que começar a ser pensado para valorizar a qualidade de vida urbana”, afirma.

No âmbito da saúde, o novo coronavírus trouxe também uma preocupação em relação à infraestrutura e à capacidade de atendimento nos leitos hospitalares em UTI que, como aponta Almeida, já estava no limite. E, portanto, destaca a importância dos governos se prepararem para situações como esta de pandemia. Ele esclarece que uma das abordagens necessárias no contexto atual é um monitoramento em tempo real, com informações mais precisas. “Essa estruturação da informação é fundamental para gerir a saúde, e acho que vamos caminhar nessa direção. Isso vai ajudar muito”, avalia.

Ciência e informação
A presença do novo coronavírus trouxe também para a centralidade a importância da produção de conhecimento científico e de investimentos em pesquisa. O médico Roberto de Almeida destaca, ainda, a necessidade de informações claras e verdadeiras, em meio a um contexto de “Infodemia” – pandemia de informações – e das chamadas fake news (notícias falsas). “O que precisamos depois desse movimento é começar a valorizar as boas fontes de informação, a gente vai precisar cada vez mais de modelo de divulgação de conhecimento”, pontua. Ele salienta, também, a importância das tecnologias e do senso crítico das pessoas nesse processo de triagem das informações.
Ainda no contexto de produção de conhecimento científico, o docente destaca o desafio de enfrentar a complexidade das problemáticas do século 21, que, segundo ele, requer um olhar interdisciplinar. “O mundo está cada vez com maior volatilidade, as coisas estão correndo de uma maneira muito rápida, elas têm uma instabilidade e também são complexas e ambíguas. Então, todas as coisas que são dessa maneira geram problemas científicos complexos, desafiadores, e não tem como uma disciplina só resolver os problemas”, aponta.


AI Unila

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