Sinistro

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Sinistro

Mais uma vez surge a discussão sobre a prevenção aos incêndios, alvarás, perícias e tudo mais a que assistimos exaustivamente nos últimos anos, sobretudo após o incêndio da boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, diga-se, onde as punições foram brandas para os responsáveis. Opa, remendo: foram punidos apenas moralmente até o presente momento, diante do escarcéu da mídia. Passados quatro anos, não houve condenações. Com os processos em curso, os envolvidos aguardam julgamento em liberdade. Foi uma das maiores tragédias brasileiras, com 242 vítimas.

Acidente?
O acidente da casa noturna Kiss foi fruto da irresponsabilidade, pois onde se viu acender fogos de artifício em local fechado e cercado de materiais altamente inflamáveis? Mesmo assim consideram uma fatalidade “não proposital”. Boa parte das vítimas morreu por asfixia. O caso é que depois do ocorrido as regras endureceram por parte dos bombeiros, e muita coisa mudou no país. Hoje não há um único estabelecimento sem a placa verde enorme na fachada especificando a capacidade, luminosos informando saídas de emergência e tudo mais o que é requisitado por força de lei. Os bombeiros não querem prevaricar, pois isso ocasiona risco de morte; tanto que um dos maiores obstáculos para a obtenção de um alvará é a segurança, mediante projeto detalhado, vistorias e procedimentos que passaram a receber atenção redobrada.

Em Minas
No trágico e recente episódio em Janaúba, Minas Gerais, a creche — pública — não possuía alvará para o funcionamento, tampouco sinalização, extintores e as demais obrigações. Mas se estivesse em dia com o Corpo de Bombeiros, haveria chances de o ocorrido ser minimizado? Difícil. O funcionário jogou gasolina aos quatro cantos, nas paredes, móveis… e ateou fogo. Foi como portasse um lança-chamas. Aspersores, hidrantes, nada funcionaria em situação similar, num crime horrendo e calculado. E pensar que escolas que não possuem dinheiro nem para remendar o telhado seriam equipadas com suprimentos anti-incêndio! Dificilmente haveria formas de prevenção para uma fatalidade assim. Mas há os questionamentos, porque eles se fazem necessários após o sinistro; nunca antes, lamentavelmente.

Culpados
Além do autor, fatalmente haverá mais culpados, a começar pelo prefeito que não protegeu a estrutura como deveria; a diretora possivelmente será indiciada, ao não observar um laudo que apontava uma ponta de desequilíbrio no funcionário, apesar de ele passar em todos os testes de rotina com o nível “ótimo”. Vai sobrar para o comandante do Corpo de Bombeiros da cidade mineira, porque não interditou o estabelecimento de ensino; vai pagar também o psicólogo do núcleo de ensino, por não ter afastado o segurança. Quem diria, alguém contratado para cuidar das crianças põe fogo nelas. É dantesco.

E vai mudar?
Mas num país onde a grande maioria das creches e escolas públicas carece de tudo, da merenda aos livros, carteiras e cadeiras, veremos quais as desculpas das administrações mediante as regras afrouxadas e que colocam em risco as crianças. E crianças, além do mais, adoram brincar com caixas de fósforo, fazem foguetes e estouram bombinhas juninas. Há mais disso ao alcance da molecada do que os livros. Tomara que a tragédia cause essa revisão nos espaços de ensino, com peso maior do que causou nas boates. Mas é difícil, isso não está no orçamento dos municípios, sendo assim, apesar do susto, vai ficar para o ano que vem. É trágico!

Cada um, cada caso
Mas a vida é assim, há pelo menos a tentativa de solução para cada tipo de problema, até os que nos derrubam, como foi o incêndio em Minas. É difícil a tarefa de aperfeiçoar a estrutura antes do humano ser aperfeiçoado.

Muito agradecido
Eu já havia escrito a coluna e a enviado antecipadamente para a redação quando fiquei sabendo da votação na Câmara Municipal que me concedeu o título de Cidadão Honorário. Fiquei muito sensibilizado e honrado com a preciosa e unânime deferência. Farei um agradecimento mais de acordo, aqui, na próxima edição. Muito obrigado!

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GDIA