10 de janeiro de 2019
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10 de janeiro de 2019

Corvo especial
Como hoje aniversariamos a “existência” formal do Parque Nacional do Iguaçu, sacramentado pela caneta poderosa do ditador Getúlio Vargas, utilizaremos todo o espaço da coluna para relatar o pitoresco. É uma forma de o Corvo colaborar com a edição especial que está sendo encartada hoje. Os fatos narrados aqui, em especial sobre o Cabeza de Vaca, são verdadeiros, embora inspirem o contrário.

 

80 anos
Haja história para contar sobre este vovô, o PNI. Isso sem mencionar as controvérsias. O parque, que abriga as Cataratas do Iguaçu, é uma ilha paradisíaca cercada de lavouras e exemplos de como não se deve lidar com a natureza. Isso é um fato. Mas isso está aos poucos mudando; as novas gerações são mais conscientes, tratam melhor as matas ciliares e nascentes, pensam um pouco mais no planeta… No fim, visitar o Parque Nacional do Iguaçu é uma maneira de ajudar a preservar o que está fora dele.

 

Sobre Cabeza de Vaca
Este Corvo deu uma lida em tudo o que foi escrito sobre o “explorador”, aliás, um título que Álvar Núñes não merece. Ele estava mais para missionário do que outra coisa, pelo senso humanitário que desenvolveu durante oito longos anos de escravidão na América do Norte. Há enorme diferença entre o modus operandi colonizador de Cabeza de Vaca se comparado ao dos patrícios Cortez e Pinzón, que de truculentos e sanguinários quase exterminaram civilizações.

 

Canonização
A Andaluzia mantém uma corrente religiosa muito forte pela canonização de Cabeza de Vaca. O processo estaria em franca discussão no Vaticano. Ao ser escravizado e negociado pelas tribos nômades norte-americanas, Álvar Núñes e outros três cristãos passaram a percorrer toda a costa do Golfo do México, chegando a avistar o Oceano Pacífico. Durante o cativeiro, Cabeza de Vaca passou a ser admirado pelos nativos e se tornou uma espécie de curandeiro. Acontece que ele possuía conhecimentos da medicina rudimentar, adquiridos nas guerras papais em que lutara, e ficou fácil identificar casos de depressão. Bastava uma conversa com o índio, e ele já saía tocando apito! Ao perceber que o encontro entre os índios que o seguiam (mais de dois mil, estima-se) com os espanhóis, em terras onde hoje está o México, poderia ser convertido em carnificina, ordenou que, ao avistarem a Cruz de Nosso Senhor, baixassem os arcos e flechas. E foi assim que evitou um grande massacre, entrando para a galeria dos futuros santos.

Fora da história
Não faz muito tempo que Álvar Núñes Cabeza de Vaca começou a ser mencionado em salas de aulas e materiais didáticos. Estava mais para a história espanhola do que para a brasileira; e, quem diria, foi ele o fundador do estado do Paraná, batizado como província de Vera, em homenagem à sua avó. Há vários relatos de europeus rasgando as matas paranaenses nos primórdios da colonização, mas o Don Cabeça foi o primeiro a relatá-las com preciosismo, detalhando espécies da fauna e flora, demarcando a longitude e latitude de rios como Ivaí, Piquiri, Iguaçu e Paraná.

 

Expedição
E os colonizadores se moviam muito rapidamente. Para terem ideia, deixaram a ilha de Santa Catarina (depois Desterro e, mais tarde, Florianópolis) em outubro de 1541 e chegaram a Assunção em março do ano seguinte. Uma jornada pelo desconhecido de apenas seis meses, levando cavalos, soldados, índios, padres missionários, cordas, canoas… Eram de fato muito ligeiros. No meio do caminho teriam encontrado as cataratas. Aqui entre nós, nas condições da época, devem ter mais odiado do que contemplado as quedas, pois pense na dificuldade em descer as escarpas de pedras pontudas para acharem o Rio Paraná!

 

Armadilha
Os índios aprontaram uma troça na vida do Cabeza de Vaca. Ao comprar umas canoas, ou trocá-las por objetos de interesse dos silvícolas, disseram que bastava ele seguir a correnteza que logo encontraria o Rio Paraná. Álvar acreditou e embarcou. Os guaranis só não avisaram que adiante havia as cataratas. Pensa? Isso está escrito nos “Comentários”, diário de bordo que mais tarde foi convertido em livro. Um documento admirado por grandes historiadores e pesquisadores da colonização, como é o caso de Henry Miller.

 

Controvérsia
“Um tiro de arcabuz” e “um lance de balestra”, era assim que mediam as distâncias.

 

Os padres
Na travessia do Paraná, Álvar Núñes contava com a “ajuda” de dois freis, Bernardo de Armenta e Alonso Lebrón. Eles seguiam na frente negociando a passagem pelas tribos guaranis. Quando a expedição chegava, era recebida a pau e pedra, devido às sacanagens aprontadas pelos religiosos. Os freis foram devolvidos ao monastério no meio do caminho. Tornaram-se malas muito pesadas de se carregar.

 

Triste destino
O final da vida de Cabeza de Vaca é de certa forma ignorado. Ao chegar a Assunção, deparou-se com toda a espécie de atrocidades contra os nativos, como a escravidão sexual infantil inclusive, algo deplorado pelo Adelantado. A imposição de regras comportamentais muito severas foi o “começo do fim” do governo de Álvar Núñes. Armaram-lhe uma arapuca, e ele foi posto a ferros, levado num bergantim (embarcação pequena) de volta para a Europa, onde foi julgado e condenado ao desterro, provavelmente no Marrocos. Um detalhe importante: no meio do Oceano Atlântico, houve uma tormenta. Álvar suplicou que fosse solto das algemas, pois se a embarcação naufragasse, ele teria chances de nadar. Assim que abriram os grilhões, a tormenta passou e abriu-se um céu de brigadeiro. O caso está na relação de milagres do aspirante a santo.

 

Santos Dumont e Bertoni
Há um caso interessante e que é fruto de investigação histórica. Santos Dumont viu uma litografia das Cataratas do Iguaçu em Buenos Aires. Foi atrás do endereço da gráfica que havia no impresso e descobriu que ele fora encomendado por um tal de Moisés Santiago Bertoni. Por coincidência, o naturalista estava hospedado num hotel bem próximo. Lá foi convencido a conhecer as Cataratas do Iguaçu, localizadas em Puerto Victória, hoje Puerto Iguazú. Alguns contestam a carência de documentos, mas era fato que Bertoni frequentava a Argentina, pois a localidade fronteiriça de lá era enorme, uma grande cidade se comparada ao que havia no Brasil e Paraguai.

 

Visita às Cataratas
Alberto Santos Dumont estava hospedado do lado argentino, mas Frederico Engel foi buscá-lo de canoa. Visitaram as quedas do lado brasileiro e levaram meio dia até alcançarem o local. Havia uma estrada rudimentar, paralela à atual BR-469; alguns trechos do leito original podem ser encontrados no interior do parque e atrás do Hotel Carimã, onde há uns metros de pedra rejuntada da época.

 

 

Affair
Hospedado pela família Engel, diz a lenda que Santos-Dumont (ele assinava o nome assim, atestando a sua simpatia pela França) trocou olhares com a jovem Elfrida (filha do Frederico Engel), homenageada hoje com o nome da Biblioteca Pública. Segundo revelou em várias publicações, foi ela quem deu bola, mas parece que o “Pai da Aviação” não quis saber de uma aproximação. Dumont vivia com a cabeça nas alturas.

Tom Jobim
O “maestro soberano” precisava de inspiração para compor. Deu de analisar a possibilidade de se instalar uns tempos no Parque Nacional do Iguaçu. Não seria uma operação fácil porque envolvia o envio de um piano e umas dez pessoas. Um agente intermediou uma conversa com a administração do parque para saber da possibilidade de utilizarem a “casa de hóspedes” para receber Jobim durante uns 30 dias. A Varig seria a patrocinadora do projeto. Quando procuraram o Adilson Simão, ele de cara interrompeu a conversa e perguntou: “Quem é esse cara?”. Tom Jobim preferiu ficar pelas bandas da Floresta da Tijuca, onde compôs o esplêndido álbum Passarim.

 

Braguinha
O compositor das memoráveis marchinhas de carnaval e de Carinhoso, em parceria com Pixinguinha, resolveu participar de um evento em Foz, onde estavam Grande Otelo, Zezé Motta, a cantora Marlene e, entre outros, o jornalista Millor Fernandes. Na programação havia um sobrevoo às Cataratas, e o helicóptero saía de lá, bem pertinho das quedas. Millor, Marlene e Grande Otelo embarcaram felizes, e Braguinha recusou. “Não nasci passarinho”, disse.

 

Tony Bennet
O Casino Iguazú era o realizador de grandes e memoráveis eventos. Roberto Carlos, Gal Costa, Emílio Santiago, Armando Manzanero e grandes nomes da música internacional se apresentaram para os jogadores. O show mais badalado foi o de Tony Bennet, que no dia seguinte pediu a ajuda do repórter Jackson Lima para poder pintar uma aquarela nas Cataratas. Poucos sabem, mas Bennet é um dos maiores aquarelistas de natureza vivos e seus trabalhos valem fortunas. Mas como o assédio era grande, ele preferiu apenas fotografar para depois pintar em casa, em Nova Iorque. Meses depois ele enviou uma das aquarelas para que fosse leiloada e a renda destinada para entidades da cidade. Resultado: ninguém jamais viu o trabalho. Ou ele se extraviou no correio, ou na Fundação Cultural do Governo Daijó. Pensa numa aquarela das Cataratas assinada pelo Tony Bennet?

 

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GDIA